Entendemos o silêncio corporal de crianças como sinônimo de ordem, mas o cérebro infantil não foi desenhado para aprender em imobilidade prolongada. Ao contrário, ele se estrutura na ação
Adele Diamond demonstrou que funções executivas, o grande “gerente organizacional do nosso cérebro”, encarregado por gerenciar informações diferentes, entender o momento de parar e recalcular a rota, emergem de circuitos que não operam isoladamente no córtex pré-frontal. A interação entre cerebelo e córtex pré-frontal indica que movimento e cognição compartilham bases neurais. Não há um cérebro “pensante” separado de um corpo “executante”. Há um sistema integrado que aprende fazendo.
Essa integração aparece de forma consistente na literatura empírica. Marleen Oudgenoeg-Paz e colaboradores identificam que habilidades motoras nos primeiros anos de vida se associam a desfechos cognitivos posteriores. Em português claro, isso significa que ao explorar o ambiente com o corpo, a criança constrói hipóteses, testa limites e organiza informações.
Na mesma linha, Gesa Libertus evidencia que o desenvolvimento motor está relacionado não apenas à cognição, mas também à percepção e à interação social. Já Hui Shi destaca que atividades motoras que exigem adaptação, estratégia e tomada de decisão tendem a favorecer a eficiência cognitiva. Movimento não é bagunça, excesso de energia ou “hiperatividade”, é investimento neural.
Diante desse corpo teórico, a infância contemporânea apresenta um paradoxo instigante. Segundo a TIC Kids Online Brasil, crianças e adolescentes passam várias horas diárias em ambientes digitais. E o ponto central vai além do tempo de tela, mas na natureza da experiência. A maior parte dessas interações exige pouco deslocamento, pouca coordenação, pouca variação sensório-motora. O corpo participa pouco. O cérebro recebe muito. Essa assimetria pode ser devastadora.
Sem experiências corporais diversificadas, reduz-se a ativação de circuitos que sustentam o desenvolvimento das funções executivas. E, como consequência, surgem dificuldades que costumam ser interpretadas de forma isolada: desatenção, impulsividade, baixa tolerância à frustração. Sintomas que, muitas vezes, são tratados como falhas individuais, quando podem refletir uma arquitetura cotidiana que restringe o agir.
Convém reconhecer: não é a tecnologia, por si só, o problema. A literatura é cautelosa ao evitar relações causais simplistas. O ponto mais consistente é outro, o desenvolvimento depende da qualidade das experiências oferecidas à criança. E experiências corporais são insubstituíveis.
Quando o cotidiano infantil é organizado majoritariamente por telas, perde-se a oportunidade de integrar percepção, ação e pensamento em um mesmo fluxo. Perde-se a chance de aprender com o erro físico, com o ajuste do corpo, com a negociação espacial e social que nenhuma interface digital consegue reproduzir plenamente.
Em um cotidiano cada vez mais mediado por experiências digitais, e, não raro, com restritas oportunidades de ação corporal, é importante reposicionar o movimento como elemento estruturante da aprendizagem. Programas educativos que articulam movimento, autorregulação e habilidades socioemocionais, como práticas de psicomotricidade, dança, artes marciais e jogos em equipe, não configuram apenas atividades complementares, mas contextos de integração funcional entre corpo e cérebro.
Ao exigirem coordenação, tomada de decisão, controle inibitório e interação social, essas experiências favorecem o refinamento de circuitos associados às funções executivas, contribuindo para a organização cognitiva de modo coerente com o que a literatura neurodesenvolvimental tem descrito. Elas são oportunidade de integração e desenvolvimento cerebral para avanço cognitivo. Aqui fica a reflexão: se o cérebro aprende com o corpo, o que estamos oferecendo quando mantemos a infância sentada?
*Sheron Mendes é bióloga, especialista em neurociência do comportamento e professora dos cursos de pós-graduação em educação na UNINTER.
A relação entre mães e filhos é frequentemente idealizada pela sociedade como um vínculo de amor incondicional e acolhimento absoluto
No entanto, quando a figura materna apresenta traços marcantes de narcisismo, essa dinâmica familiar sofre uma profunda distorção, deixando marcas silenciosas, porém muito profundas no desenvolvimento emocional da criança. Para a psicanálise, a mãe atua como o primeiro “espelho” do bebê e primeiro lugar de amor.
É através do olhar e da resposta materna que a criança começa a reconhecer a si mesma, a dar contorno às suas próprias emoções e a construir o seu valor no mundo. Mas o que acontece quando esse espelho não reflete a criança, e sim a própria mãe?
Uma mãe com comportamento narcisista tem uma grande dificuldade em enxergar os filhos como indivíduos próprios, dotados de desejos, opiniões e necessidades. Em vez disso, ela os enxerga como extensões de si mesma. O papel da criança, muitas vezes de forma inconsciente, passa a ser o de alimentar o ego materno.
Isso pode ocorrer de duas formas: seja alcançando um sucesso irreal para que a mãe possa se exibir perante os outros, seja mantendo-se totalmente submissa para jamais ofuscar o brilho e o controle que a mãe exige possuir.
Nesse cenário de exigências, o desenvolvimento emocional do filho é severamente prejudicado. As emoções genuínas da criança são frequentemente invalidadas, minimizadas ou ignoradas. Se ela demonstra tristeza ou frustração, a mãe pode interpretar isso como uma afronta pessoal ou um ataque, em vez de acolher o sofrimento. Como consequência, a criança aprende desde muito cedo uma lição dolorosa: para receber algum afeto (ou simplesmente para evitar a rejeição), ela precisa esconder quem realmente é.
Para sobreviver a esse ambiente de desamparo, a criança cria o que a psicanálise chama de “falso self” (um falso eu). Trata-se de uma máscara de proteção emocional. O filho passa a agir exclusivamente de acordo com o que a mãe espera, abafando suas próprias vontades e sua espontaneidade. Ele se torna um verdadeiro especialista em monitorar o humor materno para evitar conflitos, vivendo em um estado de alerta constante.
Esse apagamento afeta diretamente a construção da autoestima. Uma autoestima saudável nasce da experiência de ser amado e aceito pelo que se é, com falhas e virtudes. Quando o amor materno é condicional e focado apenas na utilidade da criança para a imagem da mãe, o filho cresce com uma sensação crônica de inadequação e vazio. Ele carrega a crença silenciosa de que “nunca é bom o bastante”.
Na vida adulta, isso pode se traduzir em relacionamentos afetivos abusivos, dificuldade em impor limites, autocrítica implacável e uma busca incessante por aprovação externa. A pessoa continua procurando no mundo o olhar de aceitação que lhe faltou na infância.
Reconhecer que se cresceu sob a sombra de uma mãe narcisista é um processo muito doloroso, pois exige enfrentar a dura realidade do vazio emocional vivenciado no passado. Contudo, essa tomada de consciência é o primeiro passo para a libertação. O processo terapêutico oferece um espaço seguro e sem julgamentos para que o indivíduo possa, finalmente, dar voz àquela criança que foi silenciada.
Ao elaborar essas feridas na análise, é perfeitamente possível quebrar o ciclo de dor, resgatar a própria identidade e reconstruir a autoestima, aprendendo a se olhar com compaixão e libertando-se definitivamente do reflexo distorcido do passado.
* Elizandra Souza é psicanalista, escritora, palestrante e docente com mais de 20 anos de experiência em atendimento clínico e formação de profissionais. Atua com cursos, palestras e atendimentos voltados a psicólogos, psicanalistas, profissionais do Direito e pessoas interessadas em saúde mental, comportamento e relações humanas.
É especialista em Psicanálise e Linguagem e em Magistério do Ensino Superior pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, a PUC-SP. Possui Mestrado em Educação pela Universidade São Francisco, em Itatiba, e atualmente é doutoranda em Psicologia pela Universidad de Ciencias Empresariales y Sociales, em Buenos Aires.
Ao longo da carreira, tornou-se professora convidada em diversas instituições de ensino pelo Brasil e passou a abordar temas como crime e psicanálise, misoginia, feminicídio, ansiedade, depressão, infância hiperconectada, violência, transtornos emocionais e os impactos da saúde mental nas relações pessoais e profissionais
Moradora do Recreio, Joana Azevedo é fisioterapeuta e especialista em amamentação e taping pós-parto
Há 11 anos dedica sua carreira à saúde materno-infantil, com foco na prevenção e resolução de dificuldades durante a amamentação e no acompanhamento do desmame sem culpa.
A trajetória empreendedora de Joana começou com a abertura de uma clínica na Barra, mas foi após o nascimento do filho que descobriu sua verdadeira vocação.
“Comecei ajudando vizinhas e amigas, e uma foi indicando para outra”, relembra.
A experiência pessoal com o aleitamento, marcada por informação e acolhimento, despertou o desejo de apoiar outras mulheres. Hoje, como consultora em amamentação, Joana ajuda mães a amamentarem sem dor e a desmamar sem culpa, além de compartilhar conteúdos nas redes sociais, promovendo uma maternidade mais leve, informada e segura.
Para acompanhar o trabalho de Joana, siga o perfil no Instagram: @joana.amamentacao, ou entre em contato pelo WhatsApp: (21) 99951-9674.
* O taping pós-parto é uma técnica para reduzir inchaços, aliviar dores, melhorar a postura e dar suporte abdominal após cesárea ou parto normal
A violência que marca tantas histórias na vida adulta raramente começa ali. Ao longo da minha trajetória profissional, tenho observado que ela costuma ser construída muito antes, nos vínculos afetivos, nos modelos de cuidado e nos silêncios que cercam a infância.
Em um país onde os índices de violência contra mulheres permanecem alarmantes, com registros oficiais apontando, no último ano, cerca de quatro mortes por dia, cresce a urgência de olhar para a origem desses ciclos: lares e ambientes onde crianças crescem sem afeto, limite, respeito e são abandonadas.
Vejo que a falta de atenção e de cuidados essenciais no desenvolvimento infantil está, frequentemente, associada à chamada pobreza afetiva, à sobrecarga dos cuidadores e à dificuldade de acesso à informação ou à saúde mental. Esse tipo de negligência emocional não se restringe a contextos de vulnerabilidade socioeconômica: também se manifesta em famílias com maior estabilidade material, nas quais o cuidado afetivo acaba sendo substituído por rotinas, exigências ou pela ausência de escuta, configurando formas silenciosas de violência, muitas vezes sem marcas visíveis.
Como psicopedagoga, constato, na prática escolar, que a violência vivida nesse ambiente (ainda que menos visível do que aquela que ocorre dentro de casa) é igualmente devastadora. Acredito que o espaço da escola precisa ser seguro para que a criança aprenda não apenas conteúdos, mas também vínculos, respeito e autoestima. Quando há agressões, exclusões ou negligência afetiva, o processo de aprendizagem é interrompido, pois o sofrimento passa a ocupar o lugar da atenção e da criatividade. Por isso, considero essencial promover conversas nas escolas e investir na formação emocional dos professores.
Percebo que sinais de sofrimento emocional podem aparecer de forma simbólica nos desenhos, nas brincadeiras e na fala das crianças. Desenhos escuros, figuras incompletas ou temas recorrentes de agressividade podem indicar a necessidade de atenção e olhar atento. Em alguns casos de violência sexual, podem surgir conteúdos sexualizados ou inadequados à idade nos desenhos e nas brincadeiras, o que exige avaliação cuidadosa de profissionais especializados.
Brincadeiras em que surgem dor, castigo ou submissão, assim como frases “se eu sumisse, ninguém ia notar”, costumam funcionar, a meu ver, como pedidos de socorro simbólicos, indicando a necessidade de uma atenção qualificada.
É urgente barrar a violência contra o público infantojuvenil e romper esse ciclo para proteger as futuras gerações, tendo em vista que crianças expostas a ambientes violentos podem crescer achando que aquilo é “normal” e reproduzirem isso em suas relações futuras. Afirmo que somente o afeto e a intervenção consciente quebram esse ciclo.
Em casos de suspeita de abuso, é fundamental agir sem acusar ou confrontar, abrindo espaço para o diálogo por meio de perguntas acolhedoras. Contar histórias que abordem situações de violência, perguntar se a criança ou o adolescente conhece alguém que passe por esse tipo de situação e criar conexão com os personagens são estratégias que fazem a diferença. E frases que ofereçam proteção, como “se houver algo difícil acontecendo, você pode me contar, estou aqui, sem pressa”, ajudam a promover um ambiente de confiança.
Procurar ajuda profissional imediatamente e acionar os canais oficiais de denúncia, como o Disque 100 (Disque Direitos Humanos), o Conselho Tutelar e o Ministério Público, são importantes. Escolas, postos de saúde, igrejas e comunidades também podem atuar como pontos de atenção, acolhimento e encaminhamento. A ajuda deve vir sem medo nem vergonha. Pedir ajuda é proteger.
* Por Paula Furtado, psicopedagoga, escritora infantil, palestrante e contadora de histórias.
Com o crescimento contínuo de alunos autistas na rede regular, fevereiro escancara um problema que já não é exceção: falta preparo, apoio e articulação entre escola, saúde e família — e o impacto recai diretamente sobre a autoestima e a saúde emocional das crianças. Fevereiro não marca apenas o retorno às salas de aula. Para milhares de famílias brasileiras, especialmente as famílias atípicas, o início do ano letivo representa um momento crítico de reorganização emocional, pedagógica e institucional.
O que há pouco mais de uma década era tratado como exceção hoje é realidade cotidiana: crianças autistas estão presentes em praticamente todas as escolas regulares do país. Em muitas salas de aula, já são três ou quatro alunos com Transtorno do Espectro Autista (TEA) dividindo o mesmo espaço, exigindo adaptações pedagógicas, sensibilidade institucional e preparo técnico — algo que ainda não acompanha o crescimento dessa população. Um contingente invisibilizado.
Dados atualizados do CDC (Centers for Disease Control and Prevention) indicam que uma em cada 31 crianças está no espectro autista
No Brasil, o IBGE estima cerca de 2,4 milhões de pessoas autistas, o equivalente a 1,2% da população. Os números ajudam a dimensionar o impacto real da volta às aulas: não se trata de poucas crianças retornando à escola, mas de um contingente expressivo que desafia o sistema educacional todos os anos. Ainda assim, muitas escolas iniciam o ano letivo sem planejamento específico, sem formação adequada para professores e com estruturas que transferem para a família — especialmente para as mães — a responsabilidade pela inclusão.
Sarita e sua filha Elisa de 7 anos autista não verbal
Quando a escola não acolhe, a dor aparece
Para Sarita Melo, mãe de Elisa, de 7 anos, autista não verbal, a volta às aulas sempre foi marcada pela insegurança. A filha já foi rejeitada por três escolas, não por incapacidade de aprender, mas pela falta de preparo institucional. “A exclusão não acontece só quando a matrícula é negada. Ela acontece quando a criança está na sala, mas não é compreendida”, afirma.
Segundo Sarita, a ausência de adaptações e de apoio adequado transforma o ambiente escolar em um espaço de sofrimento. “Não é apenas sobre conteúdo. É sobre sobreviver ao dia sem adoecer emocionalmente”, diz.
Idealizadora da Jornada do TEA, Sarita destaca que a falta de articulação entre escola, família e saúde faz com que a inclusão ainda dependa quase exclusivamente das mães.
Quando a dificuldade escolar vira ferida emocional
Para a pedagoga e psicopedagoga Talita Pazeto (na foto de capa), mestre e doutora em distúrbios do desenvolvimento e mãe atípica, as dificuldades de aprendizagem não tratadas precocemente não afetam apenas o desempenho acadêmico. Elas atingem diretamente a autoestima, a socialização e a saúde emocional da criança.
“Para uma criança, errar repetidamente, não acompanhar a turma ou ser comparada o tempo todo gera uma ferida emocional profunda. O desempenho escolar está diretamente ligado à construção da autoestima”, explica.
Segundo a especialista, ainda é comum que famílias busquem ajuda apenas no final do ano letivo, quando o cansaço se acumulou, as notas já estão comprometidas e o impacto emocional já está instalado.
“Nesse cenário, muitas intervenções chegam tarde demais para recuperar conteúdos — e tarde também para proteger a autoconfiança da criança”, pontua.
Quando o diagnóstico é realizado no início do ano, as dificuldades identificadas e as intervenções começam de forma estruturada, o cenário muda. Com acompanhamento adequado, orientações claras à escola e estratégias individualizadas, os prejuízos acadêmicos são reduzidos e, principalmente, evita-se que a criança associe aprender a fracassar.
A autoestima também se constrói na sala de aula
O prejuízo escolar contínuo mina a autoestima infantil de forma silenciosa. A criança passa a se perceber como “menos capaz”, evita desafios, se retrai socialmente e, muitas vezes, desenvolve ansiedade, desmotivação e sofrimento emocional.
O impacto não fica restrito à sala de aula. Ele se estende para o comportamento, para as relações sociais e para a forma como a criança se enxerga no mundo.
Débora Saueressig- jornalista, autista e mãe atípica do Benjamim de 7 anos
Para a jornalista Débora Saueressig, mãe de um menino de sete anos, autista e estudante da educação fundamental, minimizar a importância da autoestima em nome do formalismo acadêmico é perpetuar a exclusão.
“Ignorar o desenvolvimento emocional da criança ou tratá-lo como secundário é naturalizar a exclusão dentro da escola. Não existe aprendizagem possível quando a criança é constantemente colocada em posição de fracasso”, afirma.
AEE é direito, não concessão — e a conta recai sobre a família
De acordo com Talita Pazeto, um dos principais gargalos da inclusão escolar no Brasil está no descumprimento de uma obrigação legal básica: a oferta do Atendimento Educacional Especializado (AEE).
Ela lembra que o Decreto nº 12.686 determina que o AEE deve ser ofertado pelas próprias escolas, públicas e privadas, sendo a realização em centros externos uma possibilidade excepcional, e não regra.
“O AEE não é opcional e não pode ser tratado como um favor da escola. A legislação é clara ao afirmar que o Atendimento Educacional Especializado deve acontecer dentro da instituição de ensino e deve integrar o Projeto Político Pedagógico da instituição. Quando a escola apenas encaminha o aluno para fora, sem ofertar o serviço internamente, isso não é inclusão — é descumprimento de um direito garantido”, pontua.
Na prática, porém, a ausência desse suporte acaba recaindo sobre as famílias, especialmente aquelas em contextos de maior vulnerabilidade social.
Kátia e o marido com o filho Lael, autista de 8 anos
É o que relata Katia Kintino, mãe de Lael, de 8 anos, autista nível 3 de suporte e não verbal. Mulher preta e periférica, professora da Educação Infantil e de Educação Física, com pós-graduação em Educação Especial e Inclusiva e em Autismo, Katia afirma que a volta às aulas expõe um padrão recorrente.
“Na prática, a inclusão ainda depende da família. Muitas escolas não têm AEE estruturado, mediadores ou plano pedagógico adaptado. O que deveria ser responsabilidade institucional acaba sendo empurrado para os pais. Eu já precisei dar entrada na defensoria pública e no ministério público para garantir o básico para o Lael.”, diz.
Segundo ela, a falta de preparo impacta diretamente o bem-estar das crianças. “Quando a escola não está preparada, o ambiente deixa de ser um espaço de aprendizagem e passa a ser um lugar de sofrimento. Isso afeta a autoestima da criança e aprofunda desigualdades, principalmente para famílias periféricas”, afirma.
Talita reforça que a ausência do AEE compromete não apenas o desempenho escolar, mas todo o desenvolvimento da criança. “Não existe inclusão possível sem AEE efetivo. E não existe respaldo legal para a omissão disfarçada de encaminhamento. Quando esse serviço não é oferecido, quem paga o preço é a criança”, conclui.
Um debate que precisa sair do privado
A volta às aulas não é apenas um evento escolar. É uma questão de saúde pública, educação e desenvolvimento social. Ignorar essa realidade significa perpetuar um ciclo de frustrações que se repete ano após ano para milhares de crianças e famílias.
A orientação dos especialistas é clara: se a criança apresenta dificuldades na leitura, escrita, atenção, comportamento ou organização, buscar ajuda no início do ano pode evitar um ciclo de fracassos silenciosos.
No fim das contas, garantir aprendizado é importante. Mas garantir a autoestima é essencial e começa com diagnóstico, apoio estruturado e escolas preparadas para uma realidade que já chegou.
Especialista em sono infantil e amamentação explica por que a orientação varia conforme a fase do bebê e alerta para excessos que geram insegurança materna
Entre as muitas dúvidas que surgem nos primeiros dias de vida do bebê, uma das mais comuns entre as mães é: afinal, é preciso acordar o bebê para mamar durante a madrugada? Segundo a especialista em sono infantil e amamentação Bruna Ramos, criadora do perfil @obebe_chegou, a resposta não é única e depende de fatores como idade, ganho de peso e condições de saúde do bebê.
Nos primeiros dias de vida, acordar o recém-nascido para mamar costuma ser uma recomendação frequente nas maternidades. “Em geral, indico acordar o bebê a cada três horas, tanto de dia quanto à noite, para garantir nutrição adequada e evitar quadros como a hipoglicemia”, explica Bruna. Em casos específicos, como prematuridade, baixo peso ao nascer ou alterações glicêmicas, o intervalo pode ser menor, chegando a duas horas, sempre com orientação médica.
Esse cuidado, no entanto, tende a ser temporário. “Após a primeira consulta com o pediatra, se o bebê estiver ganhando peso, apresentando sinais claros de boa hidratação (após 6 dias de vida, pelo menos 6 xixis por dia) e com evacuações diárias (para os primeiros 30 de vida), no geral não há necessidade de acordar o bebê para mamar durante a noite”, orienta a especialista.
Bruna alerta que um erro comum é manter essa prática por mais tempo do que o necessário. “Muitas mães seguem acordando o bebê por medo de que ele fique sem se alimentar o suficiente, quando, na verdade, poderiam aproveitar esse período para descansar também.” Ela explica que observar os sinais do bebê é fundamental para identificar a fome, especialmente durante a madrugada. Choro, movimentos de sucção, chupar os lábios, colocar as mãos na boca, se remexer muito, procurar o peito ou acordar espontaneamente são alguns indícios de que o bebê pode estar com fome.
Durante o dia, porém, o cuidado é outro. “Boas mamadas diurnas ajudam a garantir um aporte adequado de nutrientes e contribuem, inclusive, para um sono noturno melhor”, afirma.
A especialista também destaca que não existe um número ideal de mamadas noturnas que sirva para todos os bebês. “Cada bebê tem seu próprio ritmo. Bebês maiores que acordam muitas vezes à noite nem sempre estão com fome; outras causas podem estar envolvidas, como rotina inadequada, ambiente de sono, excesso de estímulos ou pouco gasto de energia durante o dia, que precisam ser ajustados.”
Bruna reforça que sempre há exceções, especialmente entre bebês prematuros ou com ganho de peso insuficiente, e que a avaliação individual é essencial. “Por isso, a conversa com o pediatra e a consultora de amamentação é fundamental para avaliar cada caso”.
Quando acordar o bebê é necessário, Bruna orienta usar estímulos suaves, como conversar, pegar no colo, tirar um pouco da roupa ou fazer carinho no rosto e nos pés.
“No fim das contas, informação de qualidade traz tranquilidade. Entender quando acordar o bebê é necessário — e quando não é — ajuda a reduzir a ansiedade materna e a construir uma rotina mais leve para toda a família”, conclui.
Sobre Bruna Ramos
Bruna Ramos é especialista em amamentação e certificada em sono infantil com extensão universitária pela Universidade de Brasília. Graduada em Biologia pela UNICAMP, também concluiu doutorado e pós-doutorado em Genética e Biologia Molecular na mesma instituição.
Criadora do perfil @obebe_chegou, Bruna alia conhecimento científico à prática educativa e compartilha conteúdos sobre sono infantil e amamentação que já impactaram mais de 200 mil pessoas, entre famílias, educadores e profissionais da saúde. Oferece orientação baseada em evidências para promover noites de sono mais tranquilas, sonecas de qualidade e bem-estar das crianças.
Além disso, desenvolve materiais educativos e cursos voltados para pais e cuidadores, sempre com abordagem humanizada, prática e embasada na ciência do desenvolvimento infantil.
É ali, entre gestos cotidianos, que surgem os estímulos que ajudam no desenvolvimento motor, emocional e social desde os primeiros meses de vid
A MAM Baby, especialista em cuidados infantis, reforça que esses momentos acontecem espontaneamente ao longo do ano, em ações simples que fortalecem presença, segurança e vínculo entre adultos e crianças — sempre de acordo com o ritmo e a realidade de cada família.
Ao acompanhar de perto o cotidiano das famílias, a marca observa como interações aparentemente pequenas exercem grande impacto no desenvolvimento infantil. Explorar texturas, brincar, segurar objetos ou repetir movimentos são experiências que ampliam a curiosidade do bebê e estimulam suas descobertas. Em fases específicas, como a dentição, estímulos adequados contribuem tanto para aliviar desconfortos quanto para incentivar o processo natural de aprendizagem.
“O desenvolvimento do bebê envolve também a evolução de quem o acompanha. Ao valorizar a rotina familiar, reconhecemos que pequenas ações diárias sustentam vínculos e equilíbrio emocional. A adaptação de cada integrante fortalece o ambiente que acolhe o bebê. Por isso, para a MAM, o nascimento de um bebê marca o início de uma nova família” afirma Livia Coelho, gerente de Marketing da MAM Baby.
A MAM Baby reforça ainda que acompanhar o desenvolvimento infantil significa acolher diferentes formações familiares e modos de viver o cuidado. A proposta da marca é oferecer soluções que dialoguem com a rotina real, diversa, imperfeita e afetuosa, contribuindo para ambientes mais seguros, presentes e acolhedores para bebês e cuidadores ao longo de todo o ano.
Sobre a MAM Baby
Fundada em 1976, na Áustria, e com presença em mais de 60 países, a MAM Baby é reconhecida mundialmente por sua dedicação à saúde, segurança, qualidade e design, em puericultura leve. Com um novo posicionamento focado em apoiar ativamente o desenvolvimento emocional e psicológico de mães, pais e cuidadores, a marca reforça que o crescimento do bebê e a evolução da família acontecem lado a lado, da gestação aos primeiros dentes, dos passos iniciais à introdução alimentar e em cada nova descoberta.
Para isso, a MAM combina design inovador e cuidado médico comprovado para facilitar o dia a dia e proporcionar o que há de melhor para o desenvolvimento dos bebês, sendo referência global em chupetas, mamadeiras, bicos e bombas extratoras de leite, ao mesmo tempo em que oferece um olhar sensível ao bem-estar de quem cuida.
Em 2019, a marca recebeu a Menção Honrosa pela Comissão Europeia do EU Product Safety Awards por definir e exceder as normas de segurança. Em 2023, reafirmou seu compromisso com a sustentabilidade ao utilizar o PP Biocircular (polipropileno biocircular), uma alternativa mais sustentável ao plástico de origem fóssil. A MAM colabora ativamente com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODSs) das Nações Unidas. Com o olhar voltado para o bem-estar das próximas gerações, a MAM reforça o compromisso de seguir “Juntos a cada nova fase”, caminhando lado a lado com as famílias em seus diferentes momentos.
Segundo especialista, diálogo aberto e planejamento conjunto de atividades pode contribuir para redução de conflitos e acidentes
A convivência familiar entre pais e filhos aumenta no período de férias escolares, representando uma oportunidade para o fortalecimento de laços, mas também um desafio para o planejamento de atividades e da boa convivência. O aumento do convívio e a quebra da rotina podem elevar o nível de estresse e o atrito entre pais e filhos, muitas vezes intensificados pela pressão por proporcionar lazer e pela sobrecarga de responsabilidades.
É fundamental que, mesmo durante o descanso, seja mantida uma rotina. Ainda que haja um pouco mais de flexibilidade, é importante estabelecer horários de sono e de descanso, refeições balanceadas e atividades diversas sem uso de telas, isso auxilia no bem-estar e no desenvolvimento saudável. Além de beneficiar a saúde geral, acordos pré-estabelecidos – ainda que mais flexíveis – facilitam o retorno às atividades escolares no início do ano letivo.
“Durante o período de férias, é fundamental preservar uma rotina que contemple momentos de lazer, mas também horários regulares. A manutenção de horários para dormir e acordar contribui para a preservação do ritmo biológico das crianças, refletindo diretamente em seu desenvolvimento físico, mental e emocional. Além disso, envolver os filhos em algumas decisões, como a definição da programação das atividades, pode favorecer o sentimento de participação e reduzir situações de frustração”, destaca Leia de Almeida, doutora em educação e Gerente Socioeducacional do Marista Brasil.
Leia destaca também que a comunicação e o planejamento participativo são essenciais para mitigar o risco de conflitos. Confira algumas dicas para conseguir um período de descanso seguro e harmonioso.
Sobrecarga e a importância da rotina
Este período pode gerar o aumento dos conflitos familiares, muitas vezes intensificados pela sobrecarga de responsabilidades e pela pressão por proporcionar lazer. Uma pesquisa de 2023 da IWG, uma rede de coworking, revelou que 62% dos pais consideram estressante conciliar trabalho e cuidados com os filhos nas férias escolares. Consequentemente, mais da metade usa suas folgas anuais para cumprir essas responsabilidades pessoais, enquanto apenas 10% aproveitam integralmente seus dias de férias nesse período.
Uma alternativa é recorrer às colônias de férias, contar com o apoio da rede familiar ou, ainda, organizar um rodízio entre os pais da escola para acompanhar as crianças. Eles costumam querer visitar os amigos e se envolver com eles em atividades diferentes. Estimular isso, pode ampliar o vínculo que ajudará no retorno depois.
Leia também explica que “muitas vezes, devido ao aumento do convívio familiar com os filhos, algumas preocupações já existentes com certos comportamentos, tais como birras, agressividade, apatia, isolamento, rebeldia ou problemas relacionados ao sono e à alimentação acabam se acentuando, o que pode gerar conflitos. É importante desenvolver ainda mais a sensibilidade para buscar compreender as causas e os motivos disso estar acontecendo. A escuta atenta, o diálogo é sempre a melhor alternativa. Busque se conectar com a criança, com o adolescente, com seu filho ou sua filha. Desligue também das suas telas por algum momento e olhe no olho deles e delas, explique o motivo de suas preocupações ou curiosidades com afeto e empatia”, afirma.
Programação leve e variada
É importante limitar o tempo de uso de telas pelas crianças e adolescentes durante as férias escolares. O aumento do uso de dispositivos eletrônicos é comum nesse período, mas o excesso pode afetar negativamente o sono, a concentração e a interação social. Uma sugestão é estabelecer horários específicos para o uso da tecnologia, equilibrando-os com brincadeiras e atividades físicas.
Além disso, uma programação leve e variada pode estimular o aprendizado e o desenvolvimento dos jovens. Opções como passeios ao ar livre, visitas a museus ou bibliotecas, oficinas artísticas e jogos educativos em família. “São momentos importantes para formação das crianças e dos adolescentes, não só fortalecem os laços afetivos, mas também criam memórias duradouras”, completa a gerente.
Envolver todos os integrantes no planejamento
Que tal fazer algo diferente da rotina? Atividades como passar o dia em um familiar, viajar, conhecer um lugar novo ou encontrar os amigos podem envolver todos os participantes. É importante que todos compartilhem seus desejos e expectativas, seja para atividades em grupo, novas aventuras ou experiências gastronômicas. Da mesma forma, é crucial estabelecer limites claros e horários de sono e refeições.
“Uma comunicação familiar aberta, envolvendo crianças e adolescentes nas decisões sobre viagens ou rotinas pode aumentar a autonomia dos membros e diminuir a chance de frustrações”, comenta Leia.
Promover ambientes seguros e protetivos
O período de recesso escolar costuma trazer um aumento significativo nos riscos para as crianças. Segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), durante as férias há um crescimento de até 25% nos acidentes envolvendo esse público, sendo a maioria dentro de casa. As ocorrências mais comuns incluem quedas, afogamentos, queimaduras e intoxicações.
Para reduzir esses riscos, é essencial que haja uma conversa clara com as crianças sobre os perigos e que a vigilância seja constante por parte de um adulto responsável. Entre as recomendações estão: nunca deixar crianças sozinhas em ambientes aquáticos; manter medicamentos e produtos de limpeza em suas embalagens originais, guardados em locais altos e trancados, fora do alcance infantil; e garantir o uso de equipamentos de proteção individual — como capacete, joelheiras e cotoveleiras —, em atividades como skate ou bicicleta.
Além da prevenção de acidentes, promover ambientes seguros e protetivos também significa cuidar das relações sociais das crianças. É importante que estejam sempre acompanhadas por pessoas confiáveis, evitando situações de constrangimento ou exposição a riscos emocionais. A atenção dos adultos deve incluir a observação de possíveis mudanças de comportamento, que podem sinalizar desconforto ou experiências negativas. Dessa forma, a proteção vai além do físico, abrangendo também o bem-estar emocional e social, assegurando que as férias sejam vividas com segurança, alegria e tranquilidade.
Sobre os Maristas no Brasil
Os Maristas no Brasil integram uma rede global presente em mais de 80 países em todos os continentes. Presentes há 128 anos no país, hoje atuam em mais de 94 cidades, em 25 estados brasileiros e no Distrito Federal. São 97 unidades de educação básica, 34 unidades sociais, instituições de ensino superior: Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS, Pontifícia Universidade Católica do Paraná – PUCPR e Católica de Santa Catarina, o Hospital Cajuru e Marcelino Champagnat, no Paraná, e Hospital São Lucas, em Porto Alegre, além de editoras, como a FTD Educação. Suas 5 frentes principais – Educação Básica, Ensino Superior, Editoras, Saúde e Centros de Defesas – ofertam educação de qualidade e promovem direitos humanos, engajamento solidário e preservação do patrimônio histórico, espiritual e socioambiental brasileiros.