Comportamento

Psicóloga trans lança livro sobre histórias de cura e acolhimento de minorias

  1. “Nas esquinas do cuidado: Brenda Lee e a redução de danos” mostra como, muito antes da aplicação de políticas públicas, grupos menores já atuavam com saúde pública

 

Para muitos considerado uma minoria descartável, as travestis são precursores em praticar o acolhimento aos seus pares. Nas ruas, os corpos desumanizados e as potências que reinventaram o cuidado muito antes de ele virar política pública ganha destaque no livro da psicóloga especialista em redução e danos Julia Bueno. “Nas esquinas do cuidado: Brenda Lee e a redução de danos” é fruto de sua tese de mestrado e que, agora, ganha as livrarias através de publicação da Editora Telha.

 

“Nas esquinas do cuidado” investiga as narrativas de pessoas trans e travestis sobre Redução de Danos, cuidado e transfobia, ampliando o debate sobre saúde e direitos humanos. A partir de uma perspectiva construcionista e feminista, a obra analisa como a Redução de Danos é entendida não apenas como tecnologia de saúde, mas como estratégia de sobrevivência que confronta as encruzilhadas do gênero e da vulnerabilidade social.

 

“Para mim foi muito importante perceber como existe uma narrativa que insiste em ver pessoas trans apenas como sujeitas marginalizadas que “precisam de cuidado”. Quando vamos a fundo na história, encontramos Brenda Lee, Cláudia Wonder, Jovana Baby e tantas outras que foram centrais na construção de políticas públicas e na transformação cultural do país. São trajetórias potentes, mas sistematicamente apagadas — quase como um projeto para nos expulsar da história e negar até o nosso direito à memória”, – Julia Bueno, psicóloga e escritora.

 

O livro discute como a transfobia permeia até mesmo espaços que se definem pela promoção de direitos, apontando a necessidade de abordar saúde de forma interseccional, considerando as condições estruturais que vulnerabilizam corpos trans. Ao iluminar essas experiências, a obra contribui para consolidar e expandir o campo da Redução de Danos, destacando a ética travesti como potência transformadora na promoção do cuidado.

 

“Nas esquinas do cuidado” também é uma homenagem à figura trans brasileira Brenda Lee, responsável por décadas atrás, tornar-se figura central no atendimento da população LGBTQIAPN+ antes mesmo dessa sigla ser criada. Seu cuidado, especialmente com pessoas soropositivas, foi um divisor de águas na atenção e no acolhimento dado a essa parcela da população ainda marginalizada em sua maioria.

 

Sobre a autora:

 

Julia Bueno é formada em Psicologia pelas Faculdades Integradas de Guarulhos-SP, especialista em Psicologia Política pela USP, mestra em Psicologia pela UFPE, doutoranda em Psicologia também na UFPE. É pesquisadora no GEMA (Grupo de estudos de gênero e masculinidades), também é redutora de danos, psicóloga clínica, poeta e escritora do livro de poesias “Amor & Revolta” e cofundadora do coletivo psicodelia baixo astral.

 

Sobre a Editora Telha:

 

Fundada no final de 2019, no Rio de Janeiro, a Editora Telha nasceu com o desejo de publicar com liberdade e abrir espaço para vozes plurais, muitas vezes fora dos grandes centros editoriais. Interdependente por natureza, acredita que o trabalho editorial se constrói em rede e que a diversidade de experiências amplia os caminhos da literatura. Já em sua estreia, com Motel Brasil: uma antropologia contemporânea, de Jérôme Souty, alcançou a marca de finalista do Prêmio Jabuti 2020, sinalizando desde o início seu compromisso em valorizar perspectivas que enriquecem o debate cultural.

 

Serviço:

 

Livro: Nas esquinas do cuidado: Brenda Lee e a redução de danos

Autoras: Julia Bueno

Editora: Telha

Preço: R$ 45,00

Disponível para venda através do link

Saúde & Bem-estar

Menopausa e Raça: evidências revelam desigualdades que afetam milhões de mulheres negras

Pesquisas mostram que mulheres negras enfrentam sintomas mais longos e intensos, uma transição mais precoce e barreiras de cuidado ainda pouco reconhecidas pela medicina

 

A transição menopausa não ocorre da mesma forma para todas as mulheres e, no caso das mulheres negras, estudos internacionais revelam um conjunto de desigualdades que inclui sintomas mais duradouros, início mais precoce e menor acesso a tratamentos especializados. É o que destaca a médica e pesquisadora Fabiane Berta, que vem reunindo e analisando evidências científicas sobre o tema.

 

Pesquisas como o SWAN (Study of Women’s Health Across the Nation) — estudo multicêntrico iniciado em 1994 nos Estados Unidos, que acompanha milhares de mulheres há mais de 25 anos para entender como fatores biológicos, raciais, sociais, culturais e econômicos influenciam a saúde feminina no climatério — revelam que 46% das mulheres negras relatam sintomas vasomotores, como fogachos, em comparação com 37% das mulheres brancas. Esses sintomas podem persistir por até dez anos, uma duração significativamente maior do que a observada entre mulheres asiáticas, brancas e hispânicas.

 

Para Berta, esses números não são isolados. “A ciência já demonstrou que a menopausa é vivida de maneiras distintas. Entre mulheres negras, vemos sintomas mais intensos e prolongados, e isso tem impacto direto na qualidade de vida, no sono, na cognição e no bem-estar”, explica.

 

Uma das explicações mais robustas para essa diferença é o fenômeno conhecido como weathering — o desgaste biológico causado pela exposição crônica ao estresse. Segundo o SWAN, mulheres negras apresentam níveis elevados de carga alostática já aos 45 anos, refletindo o efeito acumulado de fatores sociais, emocionais e ambientais. “Mesmo quando controlamos por renda e escolaridade, as mulheres negras continuam apresentando maior desgaste fisiológico. Isso mostra que estamos falando de fatores estruturais que atravessam gerações”, destaca a pesquisadora.

 

A literatura científica também aponta que mulheres negras e hispânicas tendem a entrar cerca de 1,2 anos mais cedo na menopausa e a vivenciar sintomas por períodos mais extensos. “Quando uma paciente negra chega ao consultório com queixas intensas por muitos anos, isso não é exceção, é um padrão documentado”, diz Berta.

 

No Brasil, com 30 milhões de mulheres na faixa do climatério e 54% da população composta por pessoas negras, o tema ganha importância populacional. Estudos nacionais e internacionais mostram que até 82% das brasileiras nessa fase referem sintomas que interferem na vida cotidiana.

 

“Reconhecer as diferenças raciais na menopausa é essencial para melhorar a escuta, o diagnóstico e a orientação clínica”, afirma.

 

Para Berta, ampliar o olhar é o primeiro passo. “As mulheres negras merecem uma abordagem que considere sua história de vida, seus marcadores biológicos e suas experiências. Equidade em saúde começa por enxergar essas diferenças.”

 

Ela reforça que o debate precisa estar no centro da agenda científica e clínica: “Menopausa tem sotaque brasileiro, tem sotaque regional, tem sotaque socioeconômico. E sim, tem sotaque racial. Reconhecer isso não é ser politicamente correto, é ser cientificamente correto. Não estamos falando de militância, mas de ciência. As desigualdades estão medidas, descritas e replicadas em estudos. Agora precisamos agir.”

 

Sobre Fabiane Berta

 

Fabiane Berta é médica e pesquisadora (CRMSP 151.126), integrante do Science Medical Team – OB-GYN Specialist. É mestranda no setor de Climatério | Menopausa e pesquisadora adjunta no setor da Endometriose | Dor pélvica pela UNIFESP. Possui pós-graduação em Endocrinologia, Neurociências e Comportamento.

 

É fundadora do MyPausa, iniciativa que propõe um registro nacional da menopausa nos 27 estados do Brasil para promover uma reforma na saúde feminina, com foco em acessibilidade a tratamentos atualizados e respeito à diversidade regional. Atua como PI sub e chefe do Steering Committee do Estudo MyPausa (Science Valley) e como coordenadora da Saúde Feminina para a Arnold Conference 2026.