Saúde & Bem-estar

Andrea Miranda de Siqueira: quando o cuidado com o outro se transforma em caminho profissional

A trajetória de Andrea Miranda de Siqueira sempre esteve ligada à educação

 

Professora, com atuação em cargos de gestão, construiu sua carreira cuidando de pessoas e processos dentro do ambiente escolar. Em 2020, ano marcado pela pandemia, sua história tomou um novo rumo.

 

Após vivenciar situações de assédio moral em uma escola particular, passou a refletir sobre outros caminhos possíveis — onde pudesse exercer, de forma mais profunda, características que sempre fizeram parte de quem é: acolhimento, escuta, disponibilidade e foco no bem-estar.

 

Foi nesse momento que Andrea decidiu estudar psicologia analítica. Mesmo mantendo sua atuação na escola, iniciou uma transição cuidadosa e consistente, ampliando gradativamente os atendimentos clínicos. Hoje, concilia as duas frentes, com um olhar cada vez mais direcionado ao cuidado com a saúde mental.

 

O maior desafio ao longo dessa jornada tem sido a captação de novos pacientes — um processo que exige constância, visibilidade e confiança.

 

Ainda assim, sua motivação diária vem do desejo genuíno de promover saúde mental, bem-estar e ajudar pessoas a encontrarem equilíbrio entre o mundo interno e as exigências do mundo externo.

 

Seu trabalho acontece a partir da escuta clínica, de intervenções cuidadosas e do respeito ao tempo, aos limites e aos processos de cada paciente. Andrea acredita que, ao criar um espaço seguro, facilita para que o outro se escute, se olhe e se fortaleça para promover mudanças possíveis e necessárias.

 

Os momentos mais marcantes de sua trajetória são aqueles em que percebe que o paciente “virou a chave” — alcançando a autoaceitação, sem julgamento ou medo, e encontrando novas formas de enxergar as situações da vida.

 

Andrea define sua trajetória como desafiadora, porém rica em aprendizados. Hoje, além de educadora e psicopedagoga, atua como terapeuta junguiana, com o objetivo de auxiliar o sujeito a compreender quem realmente é, considerando também as mensagens do inconsciente, como os sonhos. Para ela, empreender no cuidado é, acima de tudo, persistir com propósito, estratégia e paciência.

 

Contatos

Whatsapp: (021) 99172-7111

Instagram: @andreasiqueira.terapia

Maternidade

Ciclos de violência silenciosa na infância: como romper?

A violência que marca tantas histórias na vida adulta raramente começa ali. Ao longo da minha trajetória profissional, tenho observado que ela costuma ser construída muito antes, nos vínculos afetivos, nos modelos de cuidado e nos silêncios que cercam a infância.

 

Em um país onde os índices de violência contra mulheres permanecem alarmantes, com registros oficiais apontando, no último ano, cerca de quatro mortes por dia, cresce a urgência de olhar para a origem desses ciclos: lares e ambientes onde crianças crescem sem afeto, limite, respeito e são abandonadas.

 

Vejo que a falta de atenção e de cuidados essenciais no desenvolvimento infantil está, frequentemente, associada à chamada pobreza afetiva, à sobrecarga dos cuidadores e à dificuldade de acesso à informação ou à saúde mental. Esse tipo de negligência emocional não se restringe a contextos de vulnerabilidade socioeconômica: também se manifesta em famílias com maior estabilidade material, nas quais o cuidado afetivo acaba sendo substituído por rotinas, exigências ou pela ausência de escuta, configurando formas silenciosas de violência, muitas vezes sem marcas visíveis.

 

Como psicopedagoga, constato, na prática escolar, que a violência vivida nesse ambiente (ainda que menos visível do que aquela que ocorre dentro de casa) é igualmente devastadora. Acredito que o espaço da escola precisa ser seguro para que a criança aprenda não apenas conteúdos, mas também vínculos, respeito e autoestima. Quando há agressões, exclusões ou negligência afetiva, o processo de aprendizagem é interrompido, pois o sofrimento passa a ocupar o lugar da atenção e da criatividade. Por isso, considero essencial promover conversas nas escolas e investir na formação emocional dos professores.

 

Percebo que sinais de sofrimento emocional podem aparecer de forma simbólica nos desenhos, nas brincadeiras e na fala das crianças. Desenhos escuros, figuras incompletas ou temas recorrentes de agressividade podem indicar a necessidade de atenção e olhar atento. Em alguns casos de violência sexual, podem surgir conteúdos sexualizados ou inadequados à idade nos desenhos e nas brincadeiras, o que exige avaliação cuidadosa de profissionais especializados.

 

Brincadeiras em que surgem dor, castigo ou submissão, assim como frases “se eu sumisse, ninguém ia notar”, costumam funcionar, a meu ver, como pedidos de socorro simbólicos, indicando a necessidade de uma atenção qualificada.

 

É urgente barrar a violência contra o público infantojuvenil e romper esse ciclo para proteger as futuras gerações, tendo em vista que crianças expostas a ambientes violentos podem crescer achando que aquilo é “normal” e reproduzirem isso em suas relações futuras. Afirmo que somente o afeto e a intervenção consciente quebram esse ciclo.

 

Em casos de suspeita de abuso, é fundamental agir sem acusar ou confrontar, abrindo espaço para o diálogo por meio de perguntas acolhedoras. Contar histórias que abordem situações de violência, perguntar se a criança ou o adolescente conhece alguém que passe por esse tipo de situação e criar conexão com os personagens são estratégias que fazem a diferença. E frases que ofereçam proteção, como “se houver algo difícil acontecendo, você pode me contar, estou aqui, sem pressa”, ajudam a promover um ambiente de confiança.

 

Procurar ajuda profissional imediatamente e acionar os canais oficiais de denúncia, como o Disque 100 (Disque Direitos Humanos), o Conselho Tutelar e o Ministério Público, são importantes. Escolas, postos de saúde, igrejas e comunidades também podem atuar como pontos de atenção, acolhimento e encaminhamento. A ajuda deve vir sem medo nem vergonha. Pedir ajuda é proteger.

 

* Por Paula Furtado, psicopedagoga, escritora infantil, palestrante e contadora de histórias.

 

@paulafurtadopf